Ao longo desta série, venho tentando olhar para os próximos cinco a dez anos a partir dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, procurando enxergar como as grandes transformações tecnológicas, econômicas, demográficas e sociais vão modificar nossa maneira de viver, trabalhar e organizar a sociedade. Falei de fome, saúde, educação, cidades, energia, economia circular, clima, biodiversidade, desigualdade, paz, justiça e parcerias. Em todos esses temas encontrei oportunidades enormes trazidas pela Inteligência Artificial, automação, robótica, digitalização, biotecnologia, novas fontes de energia, sensores, satélites e ambientes virtuais, mas também encontrei desafios que não serão resolvidos pela tecnologia sozinha.
Agora chego ao ODS 1 — Erradicação da Pobreza, que considero, de certa forma, o grande objetivo por trás de todos os outros. O ODS 1 busca acabar com a pobreza em todas as suas formas, garantir proteção social, ampliar o acesso a recursos e serviços básicos e aumentar a capacidade de resistência das populações mais vulneráveis diante de crises econômicas, sociais e ambientais.
Olhando para os 17 ODS em conjunto, vejo uma lógica muito clara: os outros objetivos são, em grande medida, os meios para chegar a uma sociedade onde ninguém seja condenado à pobreza por falta de alimento, saúde, educação, trabalho, moradia, segurança, oportunidades ou acesso aos benefícios do desenvolvimento.
Essa percepção muda um pouco a maneira de olhar para o futuro. A pergunta deixa de ser apenas “como acabar com a pobreza?” e passa a ser “como utilizar o extraordinário aumento de produtividade que a tecnologia vai proporcionar para que mais pessoas tenham uma vida digna e com oportunidades?”. Acredito que essa será uma das grandes questões econômicas e sociais dos próximos anos.
Estamos entrando em uma época em que máquinas, algoritmos e sistemas de Inteligência Artificial realizarão uma parcela crescente das atividades que hoje dependem do trabalho humano. Algumas profissões desaparecerão ou serão profundamente reduzidas, enquanto novas ocupações surgirão em tecnologia, saúde, educação, ciência, criatividade, cuidado, turismo, cultura, esporte, entretenimento, sustentabilidade e gestão de sistemas complexos.
A agricultura terá mais automação e precisão, a indústria terá mais robôs, o comércio será cada vez mais digital, os serviços utilizarão IA em grande escala e o setor público terá ferramentas muito mais poderosas para administrar informações e atender a população.
Isso será extraordinariamente positivo se conseguirmos transformar produtividade em prosperidade compartilhada. Também existe um risco evidente: podemos produzir muito mais e, ainda assim, continuar tendo pobreza.
A tecnologia pode reduzir drasticamente o custo de produzir alimentos, transportar mercadorias, gerar energia, processar informações e prestar vários serviços.
Pode permitir que uma pequena empresa tenha acesso a ferramentas que antes estavam disponíveis apenas para grandes corporações ou que uma pessoa em uma pequena cidade faça cursos de uma universidade distante, trabalhe remotamente para uma empresa de outro lugar ou venda seus produtos para consumidores de outras regiões.
Pode ajudar agricultores a produzir mais e melhor, médicos a diagnosticar mais rapidamente, governos a identificar populações vulneráveis e empresas a criar novos produtos e serviços.
A tecnologia também pode concentrar riqueza, substituir empregos mais rapidamente do que conseguimos formar pessoas para novas funções e ampliar a distância entre quem domina as novas ferramentas e quem não tem acesso a elas.
O fim da pobreza será muito mais do que aumentar a renda
Quando pensamos em pobreza, normalmente pensamos em dinheiro. E renda continuará sendo fundamental. Ninguém pode viver dignamente sem recursos para alimentação, moradia, saúde, transporte e outras necessidades básicas. Olhando para os próximos anos, vemos que a pobreza será cada vez mais multidimensional. Uma pessoa pode ter alguma renda e, ainda assim, viver sem acesso adequado a educação, saúde e oportunidades.
Ao longo de toda esta série, voltei várias vezes ao tema do trabalho porque acredito que ele está no centro da transformação que estamos vivendo. Durante séculos, a maioria das pessoas dependeu do trabalho para obter renda, identidade social e participação econômica. Agora, a automação e a Inteligência Artificial estão começando a alterar essa relação.
Não acredito que teremos simplesmente uma sociedade sem trabalho. Teremos uma sociedade com outro trabalho. Algumas funções desaparecerão. Outras serão reduzidas ou transformadas. E novas atividades surgirão.
O trabalhador rural utilizará drones e sistemas inteligentes. O operário trabalhará ao lado de robôs. O comerciante utilizará IA para administrar seu negócio. O profissional de serviços terá ferramentas digitais para aumentar sua produtividade. O médico, o professor, o engenheiro, o advogado e praticamente todas as outras profissões utilizarão sistemas inteligentes como parte de sua rotina.
Ao mesmo tempo, atividades relacionadas ao cuidado, à criatividade, ao relacionamento humano, ao esporte e às experiências ganharão importância. Esse processo pode gerar uma enorme oportunidade para a humanidade. Se produzimos mais com menos horas de trabalho, podemos trabalhar menos, e, se isso acontecer, teremos mais tempo.
Com mais tempo, poderemos participar de atividades culturais, conviver com familiares e amigos, criar novos projetos e simplesmente viver. Isso só será uma conquista se os ganhos de produtividade forem distribuídos de maneira adequada. Caso contrário, teremos máquinas produzindo cada vez mais riqueza enquanto uma parcela da população perde renda e oportunidades.
O problema da pobreza, portanto, estará diretamente ligado à maneira como organizaremos a distribuição dos ganhos da nova economia.
É aqui que volto a uma ideia que considero fundamental: Lifelong Learning. Não podemos mais imaginar que uma pessoa estuda durante os primeiros vinte e poucos anos da vida e depois passa quarenta anos utilizando o mesmo conhecimento.
As profissões, as empresas e as tecnologias mudarão. As próprias necessidades da sociedade mudarão. Uma pessoa poderá iniciar sua vida profissional em uma determinada área, mudar de profissão depois de alguns anos, estudar novamente, trabalhar em novos projetos e continuar ativa durante muito mais tempo.
Isso vale também para os idosos. Uma população mais longeva não deve significar simplesmente mais pessoas aposentadas, como muitos estão pensando. Significa milhões de pessoas com experiência, conhecimento e capacidade de continuar participando da economia e da sociedade.
Educação a distância, Inteligência Artificial, simuladores, jogos, ambientes imersivos e plataformas adaptativas vão (já estão) reduzir enormemente as barreiras para aprender. Mas teremos que garantir acesso com Internet e equipamentos. Conteúdo de qualidade, e, principalmente, motivação para aprender.
A educação será uma das principais políticas de combate à pobreza porque será também a principal ponte entre as pessoas e os novos empregos (ou melhor, trabalhos).
Durante muito tempo, avaliamos o desenvolvimento principalmente pelo crescimento do PIB. Isso continuará sendo importante, porque sem uma economia produtiva não existe riqueza suficiente para financiar serviços públicos, empresas, salários e investimentos.
Mas o crescimento sozinho não resolve tudo. Precisamos perguntar quem participa desse crescimento. Quem consegue estudar e trabalhar? Quem consegue empreender e acessar crédito? Quem consegue utilizar tecnologia? Quem consegue ter saúde e morar adequadamente? Quem consegue participar da economia digital?
O combate à pobreza exigirá uma combinação dessas dimensões.
Na agroindústria, tecnologias poderão aumentar produtividade e reduzir desperdícios, mas pequenos produtores precisarão ter acesso a essas ferramentas. Na indústria, automação poderá gerar produtos melhores e mais baratos, mas trabalhadores precisarão ser preparados para as novas funções. No comércio, plataformas digitais poderão abrir mercados para pequenos empreendedores, mas será necessário acesso à conectividade e aos meios de pagamento. Nos serviços, a IA aumentará produtividade, mas os trabalhadores precisam se adaptar. No setor público, sistemas digitais poderão melhorar a identificação de famílias vulneráveis e direcionar recursos com maior precisão.
Em todos esses casos, a tecnologia será um instrumento de inclusão se for acompanhada por políticas que permitam às pessoas utilizá-la.
Existe outra dimensão que considero importante e que apareceu em diferentes artigos desta série.
Quando conseguimos produzir mais e trabalhar menos, o objetivo não deve ser simplesmente consumir mais. Podemos utilizar parte desse ganho para viver melhor. Isso também movimentará a economia. Novos negócios nessas áreas já citadas, de experiências pessoais, com tempos alocados por prazer, serão setores importantes de uma sociedade onde uma parcela crescente das tarefas produtivas será automatizada.
Um idoso poderá trabalhar algumas horas por semana como consultor e dedicar outras horas à uma vida saudável, ao esporte, passeios e novos aprendizados. Um profissional poderá trabalhar remotamente e morar em uma cidade diferente. Uma família poderá combinar trabalho presencial e remoto. Uma pessoa poderá estudar enquanto trabalha em um projeto.
O conceito de anywhere office já aponta para essa transformação: o local onde trabalhamos será menos importante para determinadas atividades. Isso pode reduzir desigualdades territoriais, desde que a conectividade e os serviços básicos cheguem também às regiões menos favorecidas.
O ODS 1 também fala de proteção social, e esse tema ganhará importância com a transformação do trabalho. Se teremos menos empregos tradicionais e mais trabalho por projetos, atividades autônomas e novas formas de contratação, os sistemas de proteção social terão que acompanhar essa realidade.
A proteção não poderá depender exclusivamente de um emprego formal tradicional. Teremos que discutir novas formas de garantir renda, saúde, previdência, capacitação e proteção para pessoas que transitam entre diferentes atividades. Essa discussão será difícil, mas inevitável.
A tecnologia aumentará a produtividade. A economia produzirá mais. Como transformar esse aumento de riqueza em segurança econômica para a população?
Não estou afirmando que uma única solução, como renda básica, resolverá o problema. Acredito que teremos uma combinação de mecanismos de proteção social, educação permanente, acesso a serviços públicos, novas formas de trabalho e políticas capazes de apoiar transições profissionais.
Se fizermos isso corretamente, a maior produtividade também poderá abrir espaço para uma mudança positiva no modo de vida. O objetivo não será simplesmente produzir mais, mas transformar produtividade em qualidade de vida.
É justamente aí que os demais ODS se encontram com o ODS 1, como procurei mostrar nessa série de artigos escritos. Eles não são compartimentos isolados, mas partes de um mesmo projeto de sociedade:
ODS 2 — Fome Zero: combater a pobreza começa por garantir que ninguém precise escolher entre comer hoje e viver com dignidade amanhã.
ODS 3 — Saúde e Bem-Estar: uma sociedade sem pobreza precisa impedir que doença, falta de prevenção ou acesso precário à saúde destruam renda e oportunidades.
ODS 4 — Educação de Qualidade: educação ao longo da vida será uma das principais pontes entre as pessoas e as oportunidades criadas pela nova economia.
ODS 11 — Cidades Sustentáveis: cidades inteligentes, humanas e sustentáveis podem transformar produtividade urbana em moradia, mobilidade, serviços e qualidade de vida.
ODS 6 e 14 — Água, Saneamento e Economia Azul: água limpa, saneamento e uso sustentável dos recursos marinhos podem gerar saúde, renda e oportunidades sem destruir o patrimônio natural.
ODS 7 — Energia Limpa e Acessível: energia abundante, acessível e cada vez mais limpa pode reduzir custos, aumentar produtividade e criar novas oportunidades econômicas.
ODS 8, 9 e 12 — Trabalho, Inovação e Economia Circular: uma economia inovadora e eficiente no uso dos recursos pode gerar riqueza, novos negócios e novas formas de trabalho.
ODS 13 e 15 — Clima, Florestas e Biodiversidade: proteger o planeta também é combater a pobreza, porque as populações mais vulneráveis são as que mais sofrem com os impactos ambientais.
ODS 5 e 10 — Igualdade de Gênero e Redução das Desigualdades: não haverá redução consistente da pobreza se mulheres e grupos historicamente excluídos não participarem plenamente das oportunidades da nova economia.
ODS 16 e 17 — Instituições e Parcerias: instituições confiáveis e boas parcerias entre governos, empresas, universidades e sociedade são essenciais para transformar recursos e conhecimento em resultados para a população.
Quando reúno tudo isso, chego a uma conclusão simples: os ODS não são 17 objetivos independentes, mas 17 dimensões de uma mesma transformação.
Acabar com a pobreza exige produzir riqueza e distribuir melhor; exige tecnologia e educação para utilizá-la; exige empresas inovadoras e instituições capazes de criar regras adequadas; exige crescimento sem destruir os recursos naturais que sustentam a vida.
É nesse ponto que vejo uma das grandes oportunidades de Aranduland (ver link lá embaixo). Um projeto moderno e inédito de uma cidade 3D, inteligente, humana e sustentável pode funcionar como um laboratório para tornar esses conceitos concretos, permitindo visualizar aquela sociedade citada alí em cima, em que educação, tecnologia, sustentabilidade, trabalho, lazer, cultura, saúde, mobilidade e economia estejam conectados.
O Oráculo, lá existente, baseado em IA, com representações de cidades e ambientes reais (gêmeos digitais) podem transformar os ODS em experiências nas quais as pessoas não apenas leem sobre problemas e soluções, mas experimentam possibilidades.
Depois de percorrer todos esses ODS, minha conclusão é que o futuro não será definido apenas pelas tecnologias que conseguiremos desenvolver, mas pelas escolhas que fizermos sobre como utilizá-las.
A tecnologia pode aumentar enormemente nossa capacidade de produzir riqueza; a educação pode preparar as pessoas para essa transformação; as empresas podem criar oportunidades; os governos podem estabelecer políticas; as instituições podem gerar confiança; e as parcerias podem multiplicar resultados. Mas a decisão sobre que sociedade queremos construir continuará sendo nossa.
OBS1: Imagem feita com GEMINI
OBS2: Texto feito por mim a partir de lista de tópicos dos ODS e metas feito pelo chatgpt e casados com minha experiencia em Tecnologia, gestão, EaD e Sustentabilidade
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Paulo Barreira Milet é LifeLong Learner, Consultor, Palestrante e empresário nas áreas de Gestão, Qualidade e EaD, fundador de Aranduland, cidade 3D, inteligente, humana e sustentável, Diretor da RIOSOFT e Presidente do Conselho de Educação do Instituto Coalizão Rio.



