No primeiro artigo desta série, levantei algumas questões sobre as grandes transformações que poderemos viver nos próximos 5 a 10 anos e procurei utilizar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU como uma espécie de mapa para tentar enxergar esse futuro. Eu ia começar pelo ODS 4, Educação, porque me parecia impossível discutir o futuro sem discutir como vamos preparar as pessoas para ele, mas certamente a fome aperta antes!
Então, chegamos a um tema ainda mais básico: comida.
Pode parecer estranho falar de fome em um mundo cada vez mais tecnológico, com Inteligência Artificial, robôs, agricultura de precisão, drones, sensores, satélites e máquinas capazes de produzir muito mais com menos gente. Mas é justamente essa contradição que torna o ODS 2 tão interessante e importante.
A pergunta talvez não seja simplesmente: “Conseguiremos produzir comida suficiente?”. A pergunta mais importante deve ser: “Conseguiremos fazer com que todos tenham acesso à comida de que precisam?”
O ODS 2 — Fome Zero e Agricultura Sustentável — estabelece como objetivo acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover uma agricultura sustentável. Entre suas metas estão garantir acesso a alimentos seguros e nutritivos, combater todas as formas de desnutrição, aumentar a produtividade e a renda dos pequenos produtores e tornar os sistemas agrícolas mais sustentáveis e resilientes.
A humanidade possui uma capacidade de produção de alimentos muito superior à de qualquer geração anterior e, ao mesmo tempo, milhões de pessoas continuam sem acesso regular a uma alimentação adequada.
Segundo as Nações Unidas, em 2024 cerca de 8,2% da população mundial enfrentava fome, algo próximo de uma em cada doze pessoas. Aproximadamente 2,3 bilhões de pessoas enfrentavam insegurança alimentar moderada ou grave. E as projeções indicam que, se o ritmo atual não mudar significativamente, centenas de milhões ainda poderão enfrentar fome em 2030.
E talvez o problema esteja menos na capacidade física de produzir alimentos e mais na maneira como organizamos renda, produção, distribuição, preços, desperdício e acesso. Fome não é apenas falta de comida
O relatório da FAO sobre segurança alimentar e nutrição destaca que o alto custo de uma alimentação saudável continua sendo um obstáculo importante, especialmente para as populações de menor renda. Ou seja, não basta perguntar se existe comida disponível. É preciso perguntar se as pessoas conseguem pagar por uma alimentação adequada.
Isso aproxima diretamente o ODS 2 do ODS 1, que trata da erradicação da pobreza, e também de temas como emprego, renda, inflação, habitação e desigualdade. A fome, portanto, não é apenas um problema agrícola. É também um problema econômico, social e político. E existe outra contradição: desperdício.
Essa é uma das questões mais intrigantes. De um lado, pessoas passando fome. De outro, uma enorme quantidade de alimentos sendo perdida ou desperdiçada ao longo da cadeia, desde a produção até o consumo. Isso significa que combater a fome não depende exclusivamente de produzir mais. Precisamos também aprender a perder menos, desperdiçar menos e distribuir melhor e aqui entra a tecnologia transversal e crescente nos próximos anos.
Imagine uma cidade capaz de acompanhar, praticamente em tempo real, a quantidade de alimentos disponíveis em supermercados, restaurantes, produtores, centrais de abastecimento e instituições sociais. Imagine sistemas de IA identificando excedentes antes que eles se transformem em desperdício e conectando esses alimentos a quem precisa deles.
Nos próximos cinco ou dez anos, uma das áreas em que provavelmente veremos mudanças mais profundas é justamente a produção de alimentos. Agricultura de precisão, sensores, satélites, drones, robôs, inteligência artificial, previsão meteorológica, irrigação inteligente, automação e análise de grandes volumes de dados estão permitindo que o agricultor tome decisões cada vez mais precisas.
Em vez de aplicar água, fertilizante ou defensivos de maneira uniforme em toda uma área, será possível utilizar informações detalhadas sobre o solo, as plantas, a umidade e as condições climáticas para aplicar exatamente o que é necessário, no lugar e no momento adequados. Isso pode significar mais produção utilizando menos água, menos insumos e menos área.
E se a tecnologia aumentar muito a produtividade agrícola, quem ficará com os benefícios? As grandes empresas? Os proprietários das terras? Os fabricantes de máquinas e sistemas? As plataformas de tecnologia? Ou os pequenos produtores também conseguirão aumentar sua renda?
O próprio ODS 2 reconhece essa questão ao estabelecer a meta de aumentar a produtividade e a renda dos pequenos produtores, incluindo agricultores familiares, mulheres, povos indígenas, pastores e pescadores.
Isso será especialmente importante em um mundo no qual a automação poderá reduzir a quantidade de trabalho humano necessária em diversas atividades rurais. Talvez tenhamos uma agricultura cada vez mais automatizada e produtiva, mas precisaremos pensar cuidadosamente em como essa transformação será distribuída socialmente.
No primeiro artigo desta série, mencionei a possibilidade de redução significativa da mão de obra necessária em atividades como agricultura, indústria, comércio e logística. A agricultura pode ser um dos exemplos mais claros. Tratores autônomos, drones, robôs, sistemas de irrigação automatizados e inteligência artificial poderão executar tarefas que hoje dependem de muitas horas de trabalho humano.
Isso não significa necessariamente o desaparecimento do agricultor, mas pode significar uma mudança radical em seu trabalho. O agricultor do futuro poderá ser cada vez mais um gestor de sistemas biológicos, dados, máquinas e decisões, utilizando tecnologia para produzir alimentos de maneira mais eficiente.
E a agricultura familiar? A tecnologia não precisa ser exclusividade das grandes propriedades.
Sensores mais baratos, drones como serviço, plataformas compartilhadas, cooperativas digitais, inteligência artificial acessível e sistemas públicos de informação podem permitir que pequenos produtores tenham acesso a ferramentas que antes estavam disponíveis apenas para grandes empresas.
Imagine, por exemplo, um pequeno agricultor utilizando uma aplicação baseada em IA que analisa imagens de sua plantação, identifica possíveis doenças, recomenda irrigação, acompanha o clima e ajuda a determinar o melhor momento para colher.
A tecnologia poderia funcionar como uma espécie de consultor agrícola digital, disponível a baixo custo. Isso poderia contribuir não apenas para aumentar a produção, mas também para reduzir perdas e aumentar a renda do produtor.
Existe ainda uma questão que costuma ficar em segundo plano. Precisamos produzir alimentos melhores. Uma alimentação baseada excessivamente em produtos pouco nutritivos pode gerar outro tipo de problema: obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e outros problemas associados à má alimentação.
O ODS 2 não trata apenas de matar a fome. Ele fala também em melhoria da nutrição e em acabar com todas as formas de desnutrição. Isso significa que o desafio alimentar do futuro será duplo: precisamos garantir que ninguém fique sem comida e, ao mesmo tempo, que a alimentação disponível seja nutricionalmente adequada.
E as mudanças climáticas? Uma das metas do ODS 2 é justamente promover sistemas sustentáveis de produção e práticas agrícolas resilientes às mudanças climáticas. Secas, enchentes, ondas de calor, mudanças nos regimes de chuva, degradação do solo e outros eventos extremos podem afetar diretamente a produção agrícola.
A agricultura do futuro precisará produzir mais, mas talvez tenha que fazer isso utilizando menos recursos naturais e enfrentando condições climáticas mais instáveis. Isso pode acelerar a adoção de agricultura de precisão, cultivo protegido, novas variedades de plantas, sistemas agroflorestais, técnicas regenerativas, irrigação inteligente e outras tecnologias.
Mais uma vez, tecnologia e sustentabilidade terão que caminhar juntas.
Nos próximos anos também poderemos assistir à expansão de alternativas que hoje ainda parecem experimentais ou de nicho. Agricultura vertical. Hidroponia. Aquaponia. Produção em ambientes controlados. Novas fontes de proteína. Fermentação de precisão. Alimentos produzidos a partir de novas tecnologias.
O importante é perceber que o sistema alimentar do futuro provavelmente será muito mais diversificado tecnologicamente do que o atual. Quanto mais alternativas tivermos, maior poderá ser nossa capacidade de responder a crises climáticas, demográficas e econômicas.
Existe outra tendência particularmente interessante: a aproximação entre agricultura e cidades. Durante muito tempo imaginamos a produção de alimentos como algo que acontece longe dos centros urbanos. Mas hortas comunitárias, agricultura urbana, fazendas verticais, telhados produtivos, escolas com hortas e pequenos sistemas de produção podem ganhar importância.
E se a IA ajudar a combater a fome? A IA poderá cruzar dados de clima, produção agrícola, preços, estoques, consumo, transporte, renda e distribuição. Com isso, poderemos ter sistemas capazes de identificar antecipadamente regiões que apresentam risco de escassez ou aumento de preços. Poderemos prever melhor determinadas perdas. Otimizar rotas. Aproximar produtores e consumidores. Reduzir desperdícios. Ajudar agricultores a decidir o que plantar. Ajudar governos a direcionar políticas públicas.
E talvez até antecipar crises alimentares antes que elas se transformem em emergências humanitárias.
Não significa que a IA resolverá a fome. Ela não substitui políticas públicas, renda, infraestrutura ou vontade política. Mas pode transformar radicalmente nossa capacidade de enxergar e administrar o sistema alimentar.
Será que o mundo terá capacidade para produzir comida suficiente nos próximos anos? A questão mais importante será outra. Como distribuir o acesso aos alimentos e aos ganhos de produtividade de maneira justa? Se a IA, a robótica e a automação aumentarem muito a produtividade agrícola, poderemos produzir mais alimentos com menos pessoas trabalhando diretamente na produção.
Isso pode ser uma excelente notícia, mas somente se os ganhos de produtividade forem convertidos em alimentos acessíveis, renda, qualidade de vida e sustentabilidade, caso contrário, teremos uma situação paradoxal: máquinas produzindo cada vez mais alimentos enquanto pessoas continuam sem poder comprá-los.
Assim voltamos ao tema central desta série. Se o trabalho tradicional deixar de ser o principal mecanismo de distribuição de renda, como ficará o acesso à alimentação?
Hoje, em grande medida, as pessoas compram comida porque possuem renda proveniente do trabalho. Se a automação reduzir significativamente a quantidade de trabalho necessária para produzir alimentos, transporte, energia e outros bens essenciais, poderemos chegar a uma situação em que a capacidade produtiva da sociedade seja enorme, mas a capacidade de consumo de parte da população seja insuficiente.
É uma questão que vai muito além do ODS 2. Ela nos obriga a discutir renda, tributação, proteção social e distribuição dos ganhos de produtividade. Ou seja, a discussão sobre fome pode nos levar diretamente àquela pergunta do primeiro artigo: como será o contrato social quando o emprego deixar de ser o principal mecanismo de distribuição de renda?
A tecnologia pode nos ajudar, simulando situações antes que ocorram. Pode experimentar uma agricultura de precisão, administrar uma propriedade rural, enfrentar uma seca, decidir como distribuir alimentos em uma situação de emergência ou compreender o impacto de diferentes escolhas alimentares.
Pode também visualizar, em um ambiente imersivo, a relação entre fome, desperdício, agricultura, água, energia, clima, renda e cidades.
E isso nos leva novamente à educação, que é o grande desafio dos próximos cinco anos. Estamos caminhando para uma época em que teremos tecnologias capazes de produzir alimentos com níveis de eficiência que hoje parecem extraordinários. Teremos mais sensores, mais dados, mais automação, mais IA e provavelmente novas formas de produção.
Mas tecnologia, por si só, não garante justiça. O grande desafio será transformar essa capacidade tecnológica em segurança alimentar, boa nutrição, sustentabilidade e acesso para todos.
A humanidade talvez nunca tenha tido tanta capacidade de produzir. Talvez o futuro da alimentação seja menos uma questão de “quanto conseguimos produzir” e cada vez mais uma questão de “como organizamos nossa sociedade para que ninguém fique sem acesso ao que somos capazes de produzir”.
Se conseguirmos combinar tecnologia, agricultura sustentável, redução do desperdício, valorização dos pequenos produtores, novas formas de distribuição e políticas de renda e proteção social, o ODS 2 poderá deixar de ser apenas uma meta da Agenda 2030 e se transformar em parte de uma nova concepção de sociedade.
No próximo artigo, continuaremos essa viagem pelos ODS, tentando olhar para outro dos elementos fundamentais da vida humana (antes da educação ODS 4) e das transformações que vêm pela frente: saúde, longevidade e envelhecimento da população (ODS 3).
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*Paulo Barreira Milet é um LifeLong Learner, Consultor e empresário nas áreas de Gestão e EaD, founder de Aranduland, Diretor da RIOSOFT e Presidente do Cons. de Educação do Coalizão Rio.



