Depois de olhar para a fome (ODS 2), e antes de entrar na educação (ODS4) chegamos agora a um dos temas que talvez mais diretamente afeta cada um de nós: saúde e bem-estar.
O ODS 3 — Saúde e Bem-Estar — tem como objetivo assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. Mas, quando pensamos nos próximos 5 a 10 anos, talvez seja necessário ampliar bastante a maneira como entendemos esse objetivo.
A medicina que vem pela frente poderá ser muito diferente daquela que conhecemos hoje. Inteligência Artificial, robótica, sensores, dispositivos vestíveis, telemedicina, genômica, medicina personalizada, impressão 3D, novos medicamentos e novas técnicas de diagnóstico estão mudando rapidamente a maneira como doenças são identificadas, tratadas e, principalmente, prevenidas.
Estamos entrando em uma época em que conseguiremos viver mais e tratar doenças de maneira cada vez mais eficiente, mas isso não significa necessariamente que viveremos melhor.
O desafio do ODS 3 é justamente fazer com que os extraordinários avanços tecnológicos da medicina se transformem em mais anos de vida saudável, e não simplesmente em mais anos de vida.
Durante muito tempo, a medicina foi predominantemente reativa. A pessoa ficava doente, procurava um médico, recebia um diagnóstico e iniciava um tratamento. Mas a combinação de sensores, exames cada vez mais precisos, inteligência artificial e análise de grandes volumes de dados vai mudar rapidamente essa lógica.
Relógios e outros dispositivos já conseguem acompanhar frequência cardíaca, atividade física, sono e diversos outros indicadores. No futuro próximo, veremos uma expansão desses sistemas, com dispositivos capazes de monitorar continuamente mais parâmetros do organismo.
Em vez de esperar que uma doença se manifeste, teremos sistemas capazes de dizer: “Existe alguma coisa mudando. Vale a pena investigar.” Essa mudança, aparentemente simples, pode ser uma das maiores revoluções da medicina. IA como uma espécie de “segundo médico”
A Inteligência Artificial também poderá transformar profundamente o diagnóstico. Sistemas de IA já são capazes de analisar imagens médicas, auxiliar na identificação de determinadas doenças e encontrar padrões em grandes conjuntos de dados que podem ser difíceis de perceber individualmente.
Uma IA poderá analisar simultaneamente histórico clínico, exames laboratoriais, imagens, medicamentos utilizados, hábitos, informações genéticas e outros dados para auxiliar o profissional de saúde a construir uma visão mais completa do paciente. Não significa necessariamente substituir o médico.
Significa dar ao médico uma capacidade de análise muito maior. O profissional continuará sendo responsável pela decisão clínica, pelo relacionamento com o paciente e por considerar aspectos que não cabem em uma base de dados.
Mas poderá contar com uma espécie de “segunda opinião” permanente, baseada em milhões de casos e em uma quantidade de informação impossível de ser processada individualmente por um ser humano.
Uma das maiores oportunidades está justamente aqui. Quanto mais cedo uma doença é identificada, maiores podem ser as possibilidades de tratamento. Imagine um sistema que acompanhe continuamente determinados indicadores de uma pessoa e perceba pequenas alterações que, isoladamente, pareceriam irrelevantes.
Uma mudança no sono. Uma alteração persistente na frequência cardíaca ou na pressão. Uma queda na atividade física. Uma combinação específica de resultados laboratoriais. Um padrão detectado em uma imagem.
Separadamente, talvez nada disso seja suficiente para chamar atenção. Mas uma IA pode cruzar essas informações e identificar uma tendência. Isso pode levar a uma medicina muito mais preditiva e preventiva.
“Qual é a probabilidade de você desenvolver determinada doença e o que podemos fazer agora para reduzir esse risco?”
Outra grande transformação será provavelmente a passagem de uma medicina mais padronizada para uma medicina progressivamente personalizada.
Hoje, dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem receber tratamentos semelhantes, apesar de terem características genéticas, hábitos, histórico e respostas diferentes. A expansão da genômica e da análise de dados vai permitir tratamentos cada vez mais individualizados.
No futuro, poderemos saber com maior precisão quais medicamentos tendem a funcionar melhor para determinado paciente, quais apresentam maior risco de efeitos adversos e quais estratégias preventivas fazem mais sentido para aquela pessoa. Isso vai tornar a medicina mais precisa e eficiente.
E aí surge uma questão que vai muito além da tecnologia: quem será o dono dos nossos dados de saúde? Para que funcione bem, precisaremos compartilhar informações. Mas dados de saúde estão entre os dados pessoais mais sensíveis que existem.
Imagine um futuro em que empresas, hospitais, seguradoras, empregadores e plataformas digitais tenham acesso a grandes volumes de informações sobre nossa saúde. Quem poderá utilizar esses dados? Para qual finalidade? Quem poderá vender essas informações? Quem poderá tomar decisões sobre uma pessoa com base em um algoritmo? Poderá uma seguradora cobrar mais caro porque uma IA identificou que determinada pessoa possui maior probabilidade de desenvolver uma doença? Poderá um empregador utilizar informações de saúde para selecionar candidatos?
Portanto, o avanço tecnológico precisará ser acompanhado por ética, legislação, segurança, transparência e governança de dados.
A robótica também vai ganhar espaço. Cirurgias assistidas por robôs já existem e tendem a evoluir. No futuro, equipamentos cada vez mais precisos poderão ampliar a capacidade dos médicos de realizar procedimentos delicados.
Teremos robôs auxiliando na reabilitação, na fisioterapia, na mobilidade de pessoas idosas e na realização de determinadas tarefas hospitalares. Em uma sociedade com mais idosos e menos pessoas em idade ativa, isso será particularmente importante. O problema é que tecnologia não substitui automaticamente a necessidade de cuidado humano.
Uma pessoa pode precisar de ajuda para se levantar, mas também pode precisar de companhia. Pode precisar de um procedimento médico, mas também de alguém que converse com ela. Pode precisar de medicamentos, mas também de afeto.
No primeiro artigo desta série, mencionei a tendência de estabilização da população e de aumento da participação das pessoas com mais idade.
Esse fenômeno terá enorme impacto sobre o ODS 3. Durante muito tempo, o sistema de saúde foi estruturado principalmente para combater doenças agudas: infecções, acidentes, emergências e outros problemas que exigem atendimento imediato. Uma população com mais idade aumenta a importância das doenças crônicas, da reabilitação, da prevenção, da saúde mental, da mobilidade e dos cuidados de longo prazo.
“Como ajudar uma pessoa de 70, 80 ou 90 anos a continuar independente, ativa e participativa?”. Essa mudança pode ser enorme. Aqui chegamos a uma distinção importante: longevidade não é a mesma coisa que qualidade de vida.
Podemos imaginar uma sociedade em que a expectativa de vida continue aumentando, mas na qual uma parte significativa desses anos adicionais seja marcada por limitações físicas, doenças crônicas ou dependência.
O objetivo deve ser aumentar a chamada expectativa de vida saudável. Isso significa combinar medicina com prevenção, alimentação adequada, atividade física, saúde mental, relações sociais, cultura, lazer e propósito. E isso aproxima o ODS 3 de praticamente todos os outros ODS.
Existe ainda uma área que ganhará uma importância enorme: saúde mental. Ansiedade, depressão, solidão, estresse e outros problemas já representam desafios importantes em muitas sociedades. A tecnologia pode ajudar. Aplicações podem acompanhar determinados comportamentos. Sistemas de IA podem auxiliar profissionais a identificar sinais de risco. Teleatendimento pode ampliar o acesso. Ambientes virtuais podem ser utilizados em determinadas terapias.
Excesso de exposição digital, dependência de redes sociais, isolamento, desinformação e relações cada vez mais mediadas por telas também podem produzir efeitos adversos. A mesma tecnologia que pode ampliar o acesso ao cuidado pode também criar novos problemas de saúde.
Em uma sociedade mais envelhecida e com possíveis mudanças na estrutura familiar e no mundo do trabalho, a solidão poderá ganhar ainda mais importância.
Se as pessoas trabalharem menos horas, isso poderá ser muito positivo. Mas o tempo livre não se transforma automaticamente em qualidade de vida. Precisaremos de cultura, esporte, turismo, educação, convivência e participação social.
Uma sociedade em que as pessoas tenham mais tempo disponível pode ser extraordinariamente rica em experiências humanas. Mas, se esse tempo vier acompanhado de isolamento e falta de propósito, o resultado poderá ser muito diferente. O conceito de bem-estar do ODS 3 precisa ser entendido de maneira muito mais ampla.
A telemedicina também poderá transformar o acesso aos serviços de saúde. Uma pessoa que mora distante de um grande centro médico pode consultar um especialista sem precisar viajar. Exames podem ser realizados localmente e analisados remotamente. Profissionais de saúde podem trabalhar conectados em redes de especialistas. IA vai auxiliar no primeiro atendimento e na triagem.
Isso será especialmente importante em países com grandes desigualdades regionais, como o Brasil. Telemedicina não resolve falta de infraestrutura física, falta de medicamentos, falta de profissionais ou dificuldades de acesso à internet. Mais uma vez, tecnologia pode ampliar a capacidade do sistema, mas não substitui a necessidade de políticas públicas e investimentos.
Os avanços tecnológicos podem produzir uma medicina extraordinariamente sofisticada, mas quem terá acesso a ela?
Podemos imaginar tratamentos personalizados, diagnósticos extremamente precisos e equipamentos avançados disponíveis para quem puder pagar, enquanto populações mais pobres continuam enfrentando dificuldades básicas de acesso. Isso pode aumentar a desigualdade em saúde.
Mas algumas tecnologias podem ter exatamente o efeito contrário. Uma aplicação de IA pode ser distribuída para milhões de pessoas a um custo relativamente baixo. Uma consulta remota pode levar conhecimento médico especializado para regiões onde não existem especialistas. Um sensor barato pode detectar precocemente um problema. Uma plataforma digital pode ajudar a organizar campanhas de prevenção.
Portanto, a tecnologia pode tanto aumentar quanto reduzir desigualdades. Tudo dependerá de como será utilizada e distribuída.
No Brasil, essa discussão passa inevitavelmente pelo SUS. Um sistema universal de saúde enfrentará desafios cada vez maiores com o envelhecimento da população, o aumento das doenças crônicas e a necessidade de incorporar novas tecnologias.
Mas também poderá se beneficiar enormemente delas. Imagine uma rede de saúde capaz de utilizar IA para identificar grupos de risco, acompanhar pacientes crônicos, otimizar estoques, prever demanda hospitalar, reduzir desperdícios e apoiar profissionais de saúde.
A tecnologia vai ajudar o sistema a fazer mais com os mesmos recursos. Mas será necessário evitar uma armadilha: transformar digitalização em burocracia digital. A tecnologia deve simplificar a vida do paciente e do profissional. Não criar mais uma camada de complexidade.
A evolução tecnológica também vai acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos e tratamentos. IA pode ajudar pesquisadores a analisar moléculas, identificar candidatos a medicamentos e acelerar etapas da pesquisa. Novas técnicas biotecnológicas vão abrir possibilidades para doenças que hoje possuem poucas alternativas de tratamento.
Mas também existe uma questão econômica. Quem poderá pagar pelos novos tratamentos? Uma terapia extremamente sofisticada pode salvar uma vida, mas custar valores inacessíveis para grande parte da população.
Portanto, inovação em saúde terá que caminhar junto com discussão sobre acesso, custos e sustentabilidade dos sistemas de saúde.
Uma das maiores oportunidades está em integrar saúde e educação. Se conseguirmos ensinar desde cedo as pessoas a cuidar da própria saúde, podemos reduzir parte importante da demanda futura. Alimentação. Atividade física. Sono. Higiene. Saúde mental. Prevenção. Uso responsável da tecnologia. Conhecimento sobre doenças.
A escola pode ser um dos lugares mais importantes para construir uma cultura de saúde. E novamente encontramos o ODS 4. Educação para a saúde pode ser uma das formas mais baratas de fazer saúde.
Hoje, muitas pessoas só prestam atenção ao próprio corpo quando alguma coisa dá errado. No futuro próximo, sensores e dispositivos vão transformar o organismo em algo permanentemente monitorado. Isso pode ajudar muito, mas também pode gerar ansiedade. Precisaremos aprender a interpretar dados sem transformar cada pequena alteração em motivo de preocupação.
Teremos que encontrar um equilíbrio entre monitorar a saúde e simplesmente viver.
Podemos chegar a uma situação em que várias doenças hoje consideradas graves sejam diagnosticadas mais cedo, tratadas com maior precisão ou até prevenidas.
Podemos ter mais autonomia para idosos. Mais tratamentos personalizados. Mais cirurgias assistidas por robôs. Mais telemedicina. Mais prevenção. Mais informação. Mais capacidade de acompanhar doenças crônicas.
Mas precisamos lembrar que saúde não é apenas tecnologia médica. Uma pessoa pode ter o melhor diagnóstico disponível e ainda viver em um ambiente insalubre. Pode ter acesso a medicamentos e não ter alimentação adequada. Pode ter acompanhamento médico e viver em isolamento social.
Pode viver muitos anos e não encontrar propósito ou satisfação. Por isso, o conceito de bem-estar precisa permanecer no centro do ODS 3. O desafio do ODS 3 nos próximos cinco anos, será esse: transformar a extraordinária capacidade tecnológica da nova medicina em mais anos de vida saudável para mais pessoas.
Precisaremos enfrentar desigualdades, proteger dados, preparar profissionais, adaptar sistemas de saúde, controlar custos e criar regras para o uso responsável da IA.
Pela primeira vez, estamos começando a reunir tecnologias capazes de acompanhar a saúde de uma pessoa de maneira contínua, analisar quantidades enormes de informação, antecipar riscos e personalizar tratamentos.
Isso vai mudar a relação da humanidade com a doença. De uma medicina predominantemente reativa para uma medicina cada vez mais preventiva, preditiva, personalizada e participativa.
O verdadeiro objetivo do ODS 3 não deve ser simplesmente aumentar a expectativa de vida. Deve ser aumentar o número de anos em que podemos andar, aprender, trabalhar, criar, viajar, amar, conviver, praticar esportes, cuidar de outras pessoas e participar da sociedade com autonomia.
A tecnologia pode nos ajudar a viver mais. A medicina pode nos ajudar a tratar melhor. A IA pode nos ajudar a prevenir. Mas o maior desafio será descobrir como transformar esses avanços em bem-estar humano.
Saúde é também a possibilidade de continuar vivendo uma vida que faça sentido. Estamos apenas aumentando a capacidade de tratar doenças ou estamos realmente construindo uma sociedade em que as pessoas possam viver mais, melhor e com mais autonomia?
Nos próximos artigos, continuaremos essa viagem pelos ODS, procurando enxergar não apenas os problemas que teremos pela frente, mas principalmente como as novas tecnologias podem ampliar nossa capacidade de enfrentá-los — e quais novos desafios elas próprias poderão criar.
*Paulo Barreira Milet é um LifeLong Learner, Consultor e empresário nas áreas de Gestão e EaD, founder de Aranduland, Diretor da RIOSOFT e Presidente do Cons. de Educação do Coalizão Rio.
OBS1: Imagem feita com GEMINI
OBS2: Texto feito por mim a partir de lista de topicos dos ODS e metas feito pelo chatgpt e casados com minha experiencia em Tecnologia, gestão, EaD e Sustentabilidade
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