Nos artigos anteriores desta série, procurei olhar para alguns dos grandes desafios que teremos pela frente utilizando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU como referência. Falamos de fome, saúde e bem-estar e, agora, voltamos a um tema que deve estar por trás de praticamente todos os outros: educação.
O ODS 4 — Educação de Qualidade — propõe assegurar uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. Essa última parte é uma das mais importantes para pensar o futuro. Porque, diante da velocidade das transformações tecnológicas, demográficas e econômicas, parece cada vez menos possível imaginar que alguém estudará durante os primeiros 20 ou 25 anos de sua vida e utilizará esse conhecimento, praticamente sem mudanças, durante os 40 anos seguintes.
A questão que se coloca é muito maior do que simplesmente ampliar o número de vagas nas escolas e universidades. O que devemos ensinar quando não sabemos exatamente quais serão as profissões do futuro? Como devemos ensinar quando a própria tecnologia está mudando a maneira como aprendemos?
Durante grande parte da era industrial, a educação foi organizada para preparar pessoas para um mundo relativamente previsível. Era possível imaginar uma sequência: estudar, aprender uma profissão, conseguir um emprego e permanecer nessa atividade durante muitos anos.
Esse modelo já vinha mudando, mas a chegada da Inteligência Artificial, da automação, da robótica e de outras tecnologias está acelerando radicalmente a transformação. Algumas profissões serão reduzidas ou desaparecerão. Outras serão profundamente modificadas. E muitas novas atividades vão surgir.
Isso já aconteceu em outras grandes transformações tecnológicas. A diferença é a velocidade. Quando máquinas substituíram parte do trabalho agrícola, houve décadas ou até gerações para que a sociedade se adaptasse. Agora, determinadas competências podem perder valor em poucos anos.
Um profissional que aprendeu uma determinada ferramenta tecnológica pode descobrir que, cinco anos depois, aquela ferramenta foi substituída por outra. Uma atividade que exigia várias horas de trabalho pode ser automatizada por um sistema de IA. Uma profissão inteira pode ter parte significativa de suas tarefas realizadas por máquinas.
Ao mesmo tempo, surgirão novas atividades que hoje sequer conseguimos definir claramente. Por isso, o grande objetivo da educação não será mais preparar alguém para uma profissão específica, mas preparar essa pessoa para uma trajetória profissional que provavelmente terá várias mudanças.
Se sabemos que determinadas tarefas serão automatizadas, não parece muito eficiente continuar concentrando toda a educação na preparação para executar exatamente essas tarefas. Isso não significa abandonar conhecimentos tradicionais.
Matemática continuará sendo importante. Ciências continuarão sendo importantes. História, literatura, línguas, geografia e conhecimentos técnicos continuarão tendo valor. Nas empresas, gestão, processos, qualidade e sustentabilidade continuam essenciais. Mas precisamos mudar a proporção entre saber alguma coisa e saber aprender alguma coisa.
Pensamento crítico, criatividade, capacidade de resolver problemas, comunicação, colaboração, curiosidade, capacidade de trabalhar em equipe, ética e adaptabilidade serão cada vez mais importantes. E existe uma competência que provavelmente atravessará todas as demais: aprender continuamente.
O conceito de Lifelong Learning, ou aprendizagem ao longo da vida, deve deixar de ser uma expressão bonita utilizada em congressos de educação e passar a ser uma necessidade prática. O treinamento corporativo já incorpora parcialmente, mas não pode ter a responsabilidade de atualizar todos os “entrantes”.
Uma pessoa poderá estar estudando aos 18 anos, trabalhando em uma determinada área aos 25, mudar de profissão aos 35, fazer uma especialização aos 45, aprender uma nova atividade aos 55 e voltar à universidade aos 70. Isso não será visto como fracasso. Será simplesmente a nova normalidade.
Em uma sociedade em transformação acelerada, a trajetória profissional deixa de ser uma linha reta e passa a ser uma sequência de ciclos de aprendizagem, trabalho, mudança, reaprendizagem e novas experiências.
E os idosos? Esse é um dos aspectos mais interessantes do futuro da educação. Se a população está envelhecendo e as pessoas vivem mais, por que imaginar que a educação termina aos 20, 30 ou 40 anos? Um indivíduo de 70 anos poderá aprender programação, história da arte, fotografia, inteligência artificial, música, idiomas, empreendedorismo ou qualquer outra área de seu interesse.
Pode ser simplesmente para continuar intelectualmente ativo, participar da sociedade, conviver, criar e realizar projetos. Em uma sociedade em que o trabalho pode ocupar menos horas da vida, educação, cultura, esporte, turismo, lazer e convivência vão ocupar um espaço muito maior.
Durante muito tempo, perguntamos: “O que você quer ser quando crescer?”. Essa pergunta precisa ser ampliada: O que você quer aprender? O que você gosta? Quais problemas quer ajudar a resolver? Que tipo de pessoa quer ser? Que contribuição quer dar? Que experiências quer viver?
Se o futuro realmente trouxer uma redução significativa da jornada de trabalho em algumas atividades, teremos algo que hoje parece escasso: tempo. E temos que aprender a utilizar esse tempo.
A educação poderá ter papel fundamental nessa transformação, já que uma sociedade com mais tempo livre pode se tornar uma sociedade de mais cultura, esporte, viagens, voluntariado, convivência, criação, vida saudável e participação comunitária.
Ao mesmo tempo em que a educação precisa preparar as pessoas para a tecnologia, a própria tecnologia está transformando a educação.
A Inteligência Artificial pode funcionar como tutor personalizado, ajudando cada estudante de acordo com suas dificuldades e seu ritmo. Uma criança que não compreendeu determinado conceito pode receber outra explicação. Um aluno avançado pode receber desafios adicionais e um com dificuldade de leitura pode receber conteúdos adaptados.
A tecnologia vai transformar uma educação baseada em “uma mesma aula para todos” em uma experiência muito mais personalizada.
E a IA vai substituir o professor? Minha aposta é que não, mas provavelmente a IA vai substituir algumas das tarefas que hoje ocupam boa parte do tempo do professor. Preparar determinados exercícios, corrigir atividades objetivas, produzir materiais didáticos, adaptar textos, criar simulações e responder dúvidas básicas são tarefas que serão cada vez mais automatizadas.
Se a tecnologia retirar do professor parte das tarefas repetitivas, ele poderá dedicar mais tempo ao que é essencialmente humano: orientar, motivar, acompanhar, estimular, conversar, identificar dificuldades e ajudar o aluno a construir autonomia.
O professor pode deixar de ser principalmente um transmissor de conteúdo e se tornar cada vez mais um mentor e orientador da aprendizagem e até mesmo um “curador de conteúdo”. Isso exigirá uma transformação profunda na formação dos próprios professores.
Não basta colocar tecnologia na educação. Precisamos preparar as pessoas para compreender e utilizar a tecnologia. Isso começa com uma nova alfabetização digital. Crianças e jovens precisarão entender o que é Inteligência Artificial, como ela funciona em termos básicos, quais são suas limitações, como verificar informações produzidas por ela e quais são os riscos de utilizá-la de maneira inadequada.
Também será necessário discutir ética, privacidade, segurança, direitos autorais, desinformação e responsabilidade. Não precisamos transformar todos os estudantes em programadores. Mas transformar todos em cidadãos capazes de conviver com sistemas inteligentes.
Deu pra entender? Aprender com IA e aprender sobre IA. Existe uma diferença importante entre duas coisas. Uma é utilizar IA para aprender. Outra é aprender sobre IA.
A primeira significa utilizar ferramentas inteligentes como tutores, assistentes, tradutores, simuladores e orientadores. A segunda significa compreender o que está por trás dessas ferramentas e suas consequências.
As duas serão necessárias. Assim como aprendemos a utilizar calculadoras sem abandonar a matemática, vamos aprender a utilizar IA sem abandonar a capacidade de pensar.
Se o aluno pedir para a IA fazer tudo, poderá produzir trabalhos melhores e aprender menos. Se aprender a utilizar a IA como ferramenta para investigar, comparar, questionar, testar hipóteses e aprofundar conhecimentos, vai aprender muito mais.
A diferença estará menos na tecnologia e mais na pedagogia (ou andragogia, ou heutagogia…). A escola não vai desaparecer. mas vai ter que mudar bastante. Se parte da transmissão de conteúdo puder ocorrer individualmente, com apoio de plataformas digitais e IA, a sala de aula poderá se transformar em um espaço mais voltado para projetos, experiências, debates, convivência e resolução de problemas.
Imagine uma turma estudando mudanças climáticas e, em vez de apenas ler sobre o assunto, utilizando um ambiente virtual para administrar uma cidade, decidir onde investir recursos, enfrentar uma seca, controlar emissões e observar os resultados. Ou estudantes construindo o gêmeo digital de seu próprio bairro. Ou aprendendo biologia em ambientes virtuais. Ou simulando uma empresa ou uma prefeitura ou desenvolvendo um projeto de energia renovável.
A escola poderia se transformar em um grande laboratório de experiências. Nesse cenário, aprender fazendo poderá ser tão importante quanto aprender lendo. Por falar nisso, esse é um dos objetivos do meu projeto Aranduland (Aranduland | Uma cidade digital, sustentável e gamificada). Veja lá em baixo.
A transformação será ainda maior no ensino superior. Durante muito tempo, a universidade foi vista como o lugar onde alguém adquiria uma formação profissional relativamente definitiva.
Isso está mudando e vai acelerar mais ainda. Universidades vão oferecer cada vez mais cursos curtos, módulos independentes, certificações específicas e programas de atualização profissional. Uma pessoa poderá não fazer apenas uma graduação. Poderá construir uma trajetória de aprendizagem ao longo da vida, combinando graduação, cursos, experiências profissionais, especializações e novas formações.
O diploma pode continuar importante, mas vai deixar de ser o ponto final. A universidade tem que se transformar em uma espécie de infraestrutura permanente de aprendizagem e reciclagem. Novos empregos e novas profissões serão criadas e algumas (várias) desaparecerão ou serão reduzidas.
Precisaremos de especialistas em IA, dados, robótica, cibersegurança, interação homem-máquina, realidade virtual, IoT, Impressão 3d, gêmeos digitais e automação. E precisaremos de quem saiba usar essas especialidades na engenharia, na medicina, no comércio, no agronegócio, na indústria, no serviço público, etc.
Mas também surgirão novas necessidades humanas. Mais profissionais de saúde, vida saudável e cuidados. Mais educadores. Mais profissionais de cultura, esporte, turismo, laser e entretenimento. Mais pessoas trabalhando com sustentabilidade, conservação ambiental e economia circular. E muito mais atividades relacionadas à longevidade e ao envelhecimento.
A grande mudança não será simplesmente “tecnologia substituindo pessoas”. Pode ser tecnologia substituindo determinadas tarefas e deslocando pessoas para atividades que exigem competências diferentes. O desafio estará no intervalo entre uma coisa e outra.
Uma profissão pode desaparecer rapidamente e uma nova pode surgir, mas o sistema educacional pode levar anos para criar um curso para ela. Esse descompasso poderá produzir desemprego e dificuldades de adaptação. Imaginem milhares de pessoas com uma formação que já não corresponde às necessidades do mercado e, ao mesmo tempo, empresas procurando profissionais com novas competências.
Teremos uma situação aparentemente paradoxal: desemprego de um lado e falta de profissionais do outro. A resposta pode (tem que) estar justamente no Lifelong Learning. Precisaremos criar mecanismos muito mais rápidos para requalificação e atualização profissional.
A educação/formação terá que ficar mais rápida. Se a tecnologia muda rapidamente, os ciclos de atualização educacional também terão que diminuir. Não podemos esperar cinco anos para criar uma formação sobre uma tecnologia que já mudou completamente. Precisaremos de cursos mais curtos, modulares e atualizáveis. Uma pessoa pode aprender uma nova competência em algumas semanas ou meses, utilizá-la profissionalmente e depois voltar para aprender outra.
Isso não significa necessariamente diminuir a importância da formação profunda. Para determinadas profissões, ela continuará indispensável. Mas teremos que combinar formação sólida com atualização rápida.
Outra possibilidade extraordinária é a personalização. Hoje, em uma turma de 30 alunos, o professor normalmente apresenta uma sequência comum. Mas cada aluno tem uma história, uma velocidade, estilo de aprendizagem e uma dificuldade diferentes. A IA poderá ajudar a identificar essas diferenças. Poderá montar trilhas de aprendizagem, identificar lacunas, recomendar conteúdos, criar exercícios, avaliar progresso e sempre adaptar a linguagem.
Isso pode levar a uma educação muito mais próxima do conceito de “cada pessoa aprende de uma maneira”. Novamente surge aqui o desafio da equidade, como já citamos tratando de pobreza e saúde. Quem terá acesso às melhores ferramentas? Quem terá equipamentos? Quem terá internet de qualidade? Quem terá professores preparados?
A tecnologia pode democratizar o conhecimento, mas também pode criar uma nova divisão entre aqueles que sabem utilizá-la e aqueles que ficam excluídos. Será necessário reinterpretar a expressão “educação para todos”. Não significa apenas garantir que toda criança tenha acesso à escola. Significa também garantir oportunidades de aprendizagem para jovens, adultos, trabalhadores, idosos e desempregados.
Uma sociedade realmente educada será aquela em que aprender seja uma atividade normal em todas as fases da vida. Não sabemos quais tecnologias existirão daqui a dez anos. Não sabemos quais profissões desaparecerão. Não sabemos quais profissões serão criadas. Não sabemos quais conhecimentos terão maior valor.
Mas podemos preparar as pessoas para enfrentar essa incerteza. Podemos ensinar a pesquisar, questionar, experimentar, errar, corrigir, colaborar e aprender novamente.
Podemos ensinar a utilizar a IA sem depender dela. Podemos ensinar tecnologia sem esquecer ética. Podemos ensinar ciência sem abandonar humanidade. Podemos ensinar profissão sem esquecer cidadania. E podemos ensinar jovens sem esquecer que os idosos também continuarão aprendendo.
Pense em uma escola em que o aluno tenha uma combinação de atividades presenciais e virtuais, utilizando IA como tutor, professores como mentores, laboratórios como espaços de experimentação e projetos como forma de avaliação. E em uma universidade que uma pessoa possa entrar aos 18 anos, sair aos 22, voltar aos 35, fazer outra formação aos 50 e participar de atividades acadêmicas aos 70. E trocar ideias com colegas e professores do mundo todo!
Imagine empresas participando mais diretamente da formação de seus profissionais, mas sem transformar a educação apenas em treinamento para o trabalho. Imagine escolas conectadas a cidades inteligentes, laboratórios, empresas, museus, hospitais, parques, universidades e ambientes virtuais.
Eu imagino tudo isso (e em todos os ODSs), e também idosos estudando ao lado de jovens, não apenas como alunos, mas também como pessoas que carregam experiências que podem ser compartilhadas.
Se uma IA pode explicar praticamente qualquer assunto, criar textos, imagens, vídeos, simulações e exercícios, qual será o papel da educação humana? A impressão é que ela não diminuirá. Pode até aumentar. Quanto mais abundante for a informação, mais importante será saber selecionar.
Quanto mais fácil for produzir respostas, mais importante será saber fazer perguntas. Quanto mais inteligente for a tecnologia, mais importante será discutir ética e responsabilidade. Quanto mais automatizado for o trabalho, mais importante será desenvolver criatividade, convivência, cultura e propósito.
A educação deixa de ser apenas uma preparação para o mercado e se torna uma preparação para uma vida mais longa, mais tecnológica e potencialmente mais livre.
O ODS 4 é um dos objetivos que mais diretamente determinará nossa capacidade de alcançar os demais. Precisaremos de uma educação capaz de acompanhar a velocidade da tecnologia sem se tornar escrava dela. Precisaremos preparar pessoas para empregos que ainda não existem e, ao mesmo tempo, ajudar milhões de trabalhadores a se adaptarem à extinção ou transformação de empregos tradicionais. Precisaremos ensinar tecnologia e, simultaneamente, ensinar a preservar aquilo que é humano. Precisaremos transformar escolas e universidades, mas também transformar a ideia de que estudar é algo que termina quando recebemos um diploma.
E precisaremos reconhecer que um mundo com maior longevidade exige uma educação que acompanhe a pessoa durante toda a sua vida. A grande revolução educacional dos próximos anos não será colocar um computador em cada sala de aula. Mas compreender que cada pessoa pode ter uma trajetória de aprendizagem própria, contínua e personalizada.
Precisaremos de professores preparados, escolas abertas à mudança, universidades mais flexíveis, políticas públicas, conectividade, equipamentos, novos métodos pedagógicos e, principalmente, uma mudança cultural.
Porque a pergunta mais importante da educação do futuro não será mais: “O que você estudou?” ou “Qual profissão você escolheu?”
Mas: “O que você quer aprender?” – “O que você está aprendendo agora?”
E essa deve ser a melhor definição de Lifelong Learning: não uma nova modalidade de educação, mas uma nova maneira de viver.
Se conseguirmos fazer essa transformação de maneira inclusiva, a tecnologia poderá ser uma das maiores ferramentas de democratização do conhecimento da história. Se não conseguirmos, poderemos ter uma sociedade em que uma pequena parcela das pessoas aprende continuamente, controla as novas tecnologias e captura seus benefícios, enquanto milhões ficam presos a conhecimentos que rapidamente perderam valor.
O desafio do ODS 4, portanto, não é apenas educar para o futuro. É criar uma sociedade em que ninguém deixe de aprender porque o futuro chegou rápido demais.
OBS1: Imagem feita com GEMINI
OBS2: Texto feito por mim a partir de lista de tópicos dos ODS e metas feito pelo chatgpt e casados com minha experiencia em Tecnologia, gestão, EaD e Sustentabilidade
Conheça (Aranduland | Uma cidade digital, sustentável e gamificada), uma cidade virtual focada nos 17 ODS, em construção permanente, sempre aberta a parcerias para cursos, games, experiencias e imersões, gêmeos digitais e informações.
*Paulo Barreira Milet é um LifeLong Learner, Consultor e empresário nas áreas de Gestão e EaD, founder de Aranduland, Diretor da RIOSOFT e Presidente do Cons. de Educação do Coalizão Rio.



