Nos artigos anteriores desta série, venho tentando olhar para os próximos cinco a dez anos a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, procurando compreender como a Inteligência Artificial, a automação, a robótica, a digitalização, os novos modelos econômicos e as mudanças demográficas transformarão a vida das pessoas.
A ideia central é que a tecnologia não é boa ou ruim por si mesma. Ela amplia possibilidades, aumenta produtividade e cria novas formas de fazer praticamente tudo, mas a maneira como seus benefícios serão distribuídos continuará sendo uma decisão humana, econômica, política e social.
Agora, nesse artigo, quero reunir dois objetivos que estarão profundamente ligados nesse novo cenário: o ODS 5, que busca promover a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, e o ODS 10, que trata da redução das desigualdades dentro dos países e entre diferentes países e populações.
Esses dois temas se tornarão ainda mais importantes justamente porque estamos entrando em uma época de grandes transformações tecnológicas. A Inteligência Artificial poderá criar oportunidades extraordinárias de acesso à educação, ao trabalho, à informação e aos serviços, e traz riscos se for utilizada sem preocupação com inclusão e distribuição de benefícios, podendo ampliar diferenças que já existem.
Quem será capaz de utilizar essa tecnologia para melhorar sua vida, criar oportunidades e participar da nova economia? O mundo será mais tecnológico, mas não significa automaticamente que será mais igual. Uma das transformações mais importantes será a redução de algumas barreiras físicas e geográficas que tradicionalmente limitaram o acesso das pessoas ao trabalho e à educação.
A expansão do trabalho remoto, das plataformas digitais, da educação on-line e dos serviços à distância vai permitir que muitas pessoas trabalhem, estudem e empreendam sem precisar estar diariamente em um determinado escritório, empresa ou grande centro urbano.
Isso poderá ser particularmente importante para muitas mulheres. Ainda hoje, a divisão desigual das responsabilidades familiares e de cuidado limita oportunidades profissionais. Muitas precisam conciliar trabalho remunerado, cuidados com filhos, idosos e outras responsabilidades que, historicamente, foram distribuídas de maneira desigual.
As novas tecnologias vão ajudar a criar maior flexibilidade. O trabalho remoto pode reduzir deslocamentos e a educação digital facilitar atualização profissional. Ferramentas de Inteligência Artificial podem aumentar produtividade e reduzir o tempo dedicado a tarefas administrativas e repetitivas.
Mas trabalhar de casa não resolverá automaticamente a desigualdade. Em alguns casos, pode até aumentar a sobrecarga se a tecnologia simplesmente transformar a casa em escritório sem que as responsabilidades domésticas sejam também redistribuídas.
Para a verdadeira transformação será necessário discutir onde as pessoas trabalham e como o trabalho e as responsabilidades de cuidado serão organizados na sociedade.
A Inteligência Artificial e a automação eliminarão tarefas e transformarão muitas profissões. Funções repetitivas, administrativas e operacionais serão cada vez mais automatizadas, enquanto crescerá a necessidade de pessoas capazes de trabalhar com criatividade, relacionamento, cuidado, análise, inovação e gestão de sistemas complexos.
Isso afetará homens e mulheres, mas os impactos não serão iguais para todos. Se determinados grupos tiverem maior acesso à educação tecnológica, equipamentos, redes profissionais e oportunidades de requalificação, poderão ocupar as melhores posições da nova economia. Se outros grupos ficarem excluídos desse processo, a tecnologia poderá aprofundar desigualdades.
Precisamos garantir que meninas e mulheres tenham acesso à formação em ciência, matemática, engenharia, programação, Inteligência Artificial e novas tecnologias, ao mesmo tempo em que precisamos reconhecer que o futuro não será construído apenas por profissionais técnicos.
A economia também continuará precisando de educação, saúde, cultura, gestão, comunicação, design, turismo, esporte, cuidados e inúmeras atividades onde competências humanas serão cada vez mais importantes.
Tenho repetido ao longo desta série que a educação não poderá continuar sendo vista apenas como uma etapa da juventude (Ver artigo ODS4). Em um mundo onde profissões mudarão rapidamente, todos precisarão aprender continuamente.
Esse conceito de Lifelong Learning será fundamental para o ODS 5 e para o ODS 10. Uma mulher que interrompeu sua carreira para cuidar da família precisará encontrar caminhos para retornar ao mercado. Um trabalhador cuja profissão foi transformada pela automação precisará aprender novas competências. Um idoso que ainda deseja continuar ativo poderá estudar e iniciar uma nova atividade. Uma pessoa que vive longe dos grandes centros poderá acessar conteúdos que antes estavam concentrados apenas em algumas cidades e universidades.
A educação digital pode ajudar muito nesse processo. Cursos on-line, microlearning, simuladores, ambientes virtuais, Inteligência Artificial e sistemas adaptativos vão tornar a aprendizagem mais acessível e personalizada.
Não adianta oferecer o melhor curso do mundo a quem não possui conexão ou disponibilizar uma plataforma sofisticada para quem não sabe utilizá-la. A inclusão digital será cada vez mais uma condição para inclusão social.
As mudanças acontecerão também no campo. A agricultura cada vez mais conectada, com drones e sensores analisando solos e condições ambientais. Sistemas inteligentes ajudando a administrar irrigação, produção e logística.
Novas oportunidades podendo aumentar desigualdades entre grandes produtores capazes de investir em tecnologia e pequenos produtores que não possuem os mesmos recursos.
Cooperativas, plataformas compartilhadas, serviços públicos, programas de capacitação e novos modelos de negócio podem permitir que pequenos produtores também utilizem drones, sensores e sistemas de Inteligência Artificial.
As mulheres terão um papel cada vez mais importante nesse processo. A imagem tradicional de que determinadas atividades rurais são exclusivamente masculinas perderá espaço à medida que a agricultura incorporar gestão, tecnologia, dados e novos modelos de comercialização.
Uma agricultora poderá utilizar plataformas digitais para acompanhar sua produção, vender diretamente para consumidores, acessar capacitação e participar de redes econômicas sem depender exclusivamente de estruturas tradicionais.
A indústria dos próximos anos terá mais robôs, sensores, sistemas conectados e Inteligência Artificial. Muitas tarefas físicas repetitivas serão automatizadas e determinados empregos desaparecerão ou diminuirão significativamente. Ao mesmo tempo, surgirão novas funções relacionadas à automação, manutenção, programação, análise de dados, cibersegurança e gestão de processos.
Durante décadas, algumas áreas industriais foram vistas como predominantemente masculinas, especialmente aquelas associadas à força física. Mas, em uma indústria cada vez mais automatizada, competências relacionadas a conhecimento, gestão e tecnologia ganharão maior importância.
Isso pode ampliar a participação das mulheres. Mas não acontecerá automaticamente. Se os processos de formação continuarem reproduzindo os mesmos estereótipos, veremos a nova economia tecnológica repetir antigas desigualdades.
Precisamos preparar meninas, mulheres e todos os grupos tradicionalmente sub-representados para participar da criação e da gestão das novas tecnologias.
A diversidade também será importante para a própria qualidade da inovação. Uma tecnologia desenvolvida apenas por pessoas com experiências semelhantes corre o risco de não compreender as necessidades de uma sociedade diversa.
Existe uma tendência de imaginar que uma decisão tomada por um sistema inteligente será automaticamente neutra e objetiva. Não será. A Inteligência Artificial aprende a partir de dados criados e coletados por seres humanos. Se os dados refletem preconceitos e desigualdades existentes, os sistemas podem reproduzir esses problemas. Um algoritmo utilizado para selecionar candidatos a empregos pode reproduzir discriminações anteriores.
Um sistema de crédito pode prejudicar determinados grupos. Uma tecnologia de reconhecimento pode apresentar resultados diferentes dependendo das pessoas analisadas. Por isso, a discussão sobre igualdade de gênero e redução das desigualdades estará diretamente ligada à forma como desenvolvemos e utilizamos a Inteligência Artificial.
Precisaremos de mais transparência e mais diversidade nas equipes que desenvolvem tecnologia. Mais capacidade de avaliar resultados e maior responsabilidade das empresas e instituições.
O comércio digital continuará crescendo e permitirá que pequenos negócios alcancem consumidores muito além de sua localização física. Uma artesã poderá vender seus produtos para outras cidades. Uma pequena empresa poderá utilizar Inteligência Artificial para criar campanhas e administrar parte de suas atividades.
Um profissional poderá oferecer consultoria remotamente ou criar conteúdos, cursos ou serviços digitais. Isso vai criar novas oportunidades de renda para mulheres, jovens, idosos e pessoas que vivem longe dos grandes centros econômicos.
Caixas e atendentes em muitas atividades repetitivas serão substituídos total ou parcialmente por sistemas automatizados. Por outro lado, continuarão existindo atividades que dependem de experiência, relacionamento e confiança. O comércio físico não desaparecerá. As pessoas não saem de casa apenas para comprar. Elas saem para conviver. Para comer. Para conhecer e viver experiências.
Serviços ligados à gastronomia, cultura, turismo, lazer e experiências humanas vão ganhar importância. A economia do futuro será tecnológica, mas continuará profundamente humana.
A redução das desigualdades não será resolvida apenas pelo mercado. Os governos terão um papel fundamental. A tecnologia poderá melhorar serviços públicos, reduzir burocracia, ampliar acesso a informações e facilitar a comunicação entre cidadãos e instituições.
Uma pessoa poderá resolver mais problemas sem enfrentar longas filas. A Inteligência Artificial vai ajudar a organizar processos e os dados vão identificar regiões e grupos que necessitam de maior atenção. Mas existe novamente o risco da exclusão.
Se todos os serviços forem transformados rapidamente em sistemas digitais sem apoio adequado, milhões de pessoas poderão ficar para trás. O desafio será utilizar tecnologia para simplificar a vida das pessoas e não para criar novas barreiras.
Um serviço público eficiente será aquele que utilizar a tecnologia quando ela melhora o atendimento, mas que continue oferecendo caminhos acessíveis para quem precisa de atendimento humano. O setor público também terá um papel fundamental na capacitação para as novas profissões, especialmente para trabalhadores que perderem atividades em razão da automação.
O ODS 10 não trata apenas das diferenças dentro de cada país. Trata também das desigualdades entre países. A revolução tecnológica pode ampliar ainda mais essa diferença. Países que dominarem Inteligência Artificial, computação avançada, biotecnologia, robótica e novas fontes de energia poderão concentrar conhecimento e riqueza. Outros poderão se transformar apenas em consumidores dessas tecnologias.
Para países como o Brasil, o desafio será enorme. Não podemos imaginar um futuro onde simplesmente importaremos soluções tecnológicas desenvolvidas em outros lugares. Precisaremos participar da criação e desenvolver conhecimento. Precisaremos investir em educação, pesquisa, inovação e empresas.
Isso significa participar da nova economia com maior autonomia e capacidade de negociação. O Brasil possui recursos naturais, biodiversidade, capacidade agrícola, universidades, centros de pesquisa e uma população criativa. O desafio será transformar essas vantagens em conhecimento e inovação. Reduzir desigualdades também significará reduzir a distância tecnológica entre pessoas, regiões e países.
A transformação tecnológica também nos obrigará a discutir a relação entre trabalho e qualidade de vida. A automação permitirá realizar determinadas atividades com menos horas de trabalho humano. A Inteligência Artificial aumentará a produtividade em escritórios, empresas, indústrias e serviços.
Se os ganhos dessa produtividade forem distribuídos adequadamente, poderemos caminhar para jornadas menores e uma maior flexibilidade. Isso será particularmente importante para a igualdade de gênero.
Uma sociedade onde homens e mulheres tenham mais possibilidades de organizar o tempo de trabalho e as responsabilidades familiares poderá ser mais equilibrada. Mas reduzir a jornada de trabalho apenas para uma parte privilegiada da população não resolverá desigualdades. O desafio será criar novas formas de distribuição dos benefícios tecnológicos.
O trabalho continuará sendo importante como fonte de renda, realização e participação social. Mas a ideia de uma única profissão, uma única empresa e uma mesma jornada durante toda a vida será cada vez menos universal.
As pessoas poderão combinar diferentes atividades. Trabalhar em projetos. Empreender. Estudar continuamente. Mudar de profissão. Trabalhar remotamente. Ensinar e aprender.
A longevidade também modificará esse cenário. Teremos mais pessoas vivendo durante décadas depois da aposentadoria tradicional. Muitas continuarão ativas, trabalhando, estudando, viajando e criando novos projetos. A idade deixará de ser, cada vez mais, uma fronteira tão rígida.
Se a tecnologia aumentar significativamente a produtividade e reduzir a necessidade de trabalho humano em determinadas tarefas, teremos que pensar no que fazer com o tempo. Essa pode ser uma enorme oportunidade. Mais tempo para a família. Mais educação e cultura. Mais esporte e lazer. Mais viagens e turismo. Mais participação comunitária e mais vida saudável.
As artes e a cultura poderão ganhar ainda mais importância em uma sociedade onde máquinas realizam uma parcela crescente das tarefas repetitivas. Assistir a uma peça de teatro ou um concerto. Praticar um esporte. Visitar uma cidade. Conhecer uma floresta. Viajar. Conviver com amigos.
Nada disso deixará de ser importante porque existe Inteligência Artificial. Pelo contrário. Em um mundo cada vez mais digital, as experiências humanas reais ganham ainda mais valor.
O turismo continuará sendo uma das grandes economias da experiência e poderá criar oportunidades em diferentes regiões, inclusive em comunidades que hoje estão afastadas dos grandes centros econômicos. Mas teremos que garantir que isso não destrua os próprios ambientes culturais e naturais que tornam um lugar interessante.
Se teremos Inteligência Artificial, robôs, plataformas digitais e sistemas cada vez mais automatizados, o que permanece? Permanecem as pessoas com suas diferenças entre histórias, experiências e necessidades. Permanecem a importância da convivência, da família, da amizade, da cultura e da comunidade.
A tecnologia será cada vez mais poderosa, mas não substituirá a necessidade de uma sociedade mais justa. Um algoritmo pode organizar informações, mas não define sozinho o que é justiça. Uma plataforma pode ampliar o acesso, mas não garante que todos tenham condições de utilizá-la. Uma empresa pode aumentar a produtividade, mas alguém terá que decidir como distribuir os benefícios.
Por isso, o verdadeiro desafio do ODS 5 e do ODS 10 será garantir que a inovação tecnológica seja utilizada para ampliar oportunidades, e não apenas para tornar alguns grupos ainda mais produtivos e poderosos.
Nos próximos cinco anos veremos uma aceleração da Inteligência Artificial e da automação, a transformação de empregos, o surgimento de novas profissões e a expansão da educação digital e do trabalho remoto. Isso pode (vai) criar novas oportunidades para mulheres, jovens, idosos, pequenos empreendedores e pessoas que vivem longe dos grandes centros.
Pode também aumentar desigualdades se o acesso à educação, à tecnologia e à renda continuar concentrado. Quando olho para esse cenário, acredito que uma das grandes responsabilidades das empresas, governos, universidades e instituições será preparar pessoas para participar da nova economia.
Precisaremos ensinar tecnologia. Mas também precisaremos ensinar as pessoas a utilizar a tecnologia. Precisaremos formar programadores e engenheiros. Mas também educadores, profissionais de saúde, artistas, empreendedores, técnicos e trabalhadores capazes de utilizar novas ferramentas.
Precisaremos falar de Inteligência Artificial. Mas também de ética, diversidade, convivência e responsabilidade. A grande transformação tecnológica será inevitável. A desigualdade, não. Ela será resultado das escolhas que fizermos.
Um exemplo prático de como podemos aproximar tecnologia, educação e inclusão é Aranduland, a cidade virtual 3D orientada pelos 17 ODS (projeto que coordeno na Riosoft. Ver link lá em baixo) . Em vez de discutir igualdade de gênero e desigualdades apenas em textos, palestras ou estatísticas, podemos criar experiências interativas onde as pessoas percebam como diferentes condições de acesso à educação, tecnologia, renda e oportunidades produzem resultados diferentes ao longo da vida.
Também é possível criar jogos sobre o futuro do trabalho, mostrando profissões que desaparecem, novas atividades que surgem e a importância da requalificação permanente. Aranduland poderia, assim, ajudar a transformar os ODS 5 e 10 em algo mais concreto: não apenas objetivos a serem lidos, mas situações que podem ser vivenciadas, compreendidas e discutidas.
Quando penso nos próximos cinco a dez anos, acredito que teremos tecnologias extraordinárias. A Inteligência Artificial será mais poderosa, os sistemas serão mais automatizados e a produtividade será muito maior.
Com toda essa tecnologia, estaremos criando um mundo onde mais pessoas terão oportunidade de aprender, trabalhar, criar, viver com dignidade e aproveitar melhor a própria vida? Essa será uma das grandes medidas do nosso progresso.
Não será suficiente construir máquinas e sistemas cada vez mais inteligentes. O verdadeiro avanço será utilizar essa inteligência para criar uma sociedade com mais oportunidades, menos barreiras e uma distribuição mais justa dos benefícios do desenvolvimento.
OBS1: Imagem feita com GEMINI
OBS2: Texto feito por mim a partir de lista de tópicos dos ODS e metas feito pelo chatgpt e casados com minha experiencia em Tecnologia, gestão, EaD e Sustentabilidade
Conheça (Aranduland | Uma cidade digital, sustentável e gamificada), uma cidade virtual focada nos 17 ODS, em construção permanente, sempre aberta a parcerias para cursos, games, experiencias e imersões, gêmeos digitais e informações.
*Paulo Barreira Milet é um LifeLong Learner, Consultor e empresário nas áreas de Gestão e EaD, founder de Aranduland, Diretor da RIOSOFT e Presidente do Cons. de Educação do Coalizão Rio.



