ODS 8, ODS 9 e ODS 12 — Trabalho, inovação e economia circular: produziremos mais, trabalharemos diferente e desperdiçaremos menos?

ODS 8, ODS 9 e ODS 12 — Trabalho, inovação e economia circular: produziremos mais, trabalharemos diferente e desperdiçaremos menos?

Da série: O QUE VEM POR AÍ EM 5 ANOS? E OS ODS DA ONU?

Nos artigos anteriores desta série, venho procurando observar os próximos cinco a dez anos a partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. A intenção não é fazer previsões exatas, porque o futuro sempre encontra maneiras de nos surpreender. O que estou tentando fazer é identificar tendências que já estão em curso e imaginar como elas afetarão a vida das pessoas. Certamente queremos que nosso projeto ARANDULAND (veja lá embaixo), focado nos ODS, tenha bons exemplos disso tudo.

Até aqui, falamos de alimentação, saúde, educação e cidades. Agora quero reunir três ODS que, na minha visão, estarão profundamente conectados nos próximos anos: o ODS 8 — Trabalho Decente e Crescimento Econômico, o ODS 9 — Indústria, Inovação e Infraestrutura e o ODS 12 — Consumo e Produção Responsáveis.

Esses três objetivos nos levam diretamente a uma das grandes discussões do nosso tempo: como produzir riqueza, utilizar tecnologia, criar oportunidades e melhorar a qualidade de vida sem continuar aumentando indefinidamente o consumo de recursos e a quantidade de resíduos?

A resposta passa por inovação e por uma mudança profunda no modelo econômico. E é aqui que entra o conceito de Economia Circular.

Durante décadas, grande parte da economia funcionou de maneira relativamente simples: extraímos recursos, produzimos, consumimos e descartamos. O modelo foi extremamente eficiente para gerar crescimento econômico e ampliar o acesso a produtos. Criou também uma enorme quantidade de desperdícios, poluição e pressão sobre os recursos naturais.

A lógica circular será diferente. Em vez de pensar apenas em produzir e vender cada vez mais, teremos que pensar em produtos que durem mais, sejam reparados, reutilizados, atualizados, compartilhados e, finalmente, reciclados.

Isso mudará empresas e empregos. Mudará a indústria e o comércio. E mudará a nossa própria relação com o consumo.  Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial, a robótica, a automação, a Internet das Coisas, a impressão 3d, os gêmeos digitais e outras tecnologias aumentarão ainda mais a produtividade.

E chegamos à grande questão que venho levantando desde o início desta série: se conseguiremos produzir mais com menos pessoas e menos horas de trabalho, como distribuiremos os benefícios dessa nova produtividade?

Durante mais de um século, a ideia de trabalho esteve fortemente associada a um emprego relativamente estável, um local definido e uma jornada determinada. Estudar, escolher uma profissão, entrar no mercado, trabalhar durante décadas nessa profissão, e, finalmente, aposentadoria.

Esse modelo já está sendo transformado. A Inteligência Artificial automatiza atividades administrativas, operacionais e intelectuais. A robótica está assumindo tarefas físicas e repetitivas. Plataformas digitais mudam a relação entre empresas e trabalhadores. O trabalho remoto reduziu a importância da presença física em muitas profissões.

Nos próximos anos, uma parcela crescente das pessoas trabalhará de maneira diferente. Algumas terão empregos tradicionais e outras trabalharão por projetos. Outras combinarão diferentes fontes de renda ou atuarão como consultores, empreendedores ou prestadores de serviços especializados.

O conceito de anywhere office, que tratei no artigo sobre cidades (ODS 11), será cada vez mais relevante para atividades baseadas no conhecimento.

Mas não será assim para todos. Um médico precisa estar fisicamente presente em muitas situações (até mesmo para realizar cirurgias robóticas a distância!). Um trabalhador da construção também ou um técnico de manutenção. Um agricultor (mesmo para operar um drone) e um profissional de hotelaria ou um artista no teatro. Um motorista, prlo menos enquanto os veículos ainda exigirem motoristas.

Por isso, não existirá um único futuro do trabalho. Existirão diferentes futuros acontecendo ao mesmo tempo. A tecnologia eliminará determinadas tarefas e, em alguns casos, profissões inteiras. Caixas, operadores, atendentes, digitadores, trabalhadores administrativos e profissionais responsáveis por atividades repetitivas estão entre os grupos mais afetados pela automação.

Seria um erro imaginar apenas uma substituição simples entre pessoas e máquinas. Na maioria dos setores, veremos uma transformação do trabalho.

Um profissional da indústria continuará existindo trabalhando com equipamentos mais automatizados. Um agricultor continuará sendo necessário, utilizando sensores, drones e sistemas inteligentes. Um vendedor continuará sendo importante, mas terá acesso a dados e ferramentas digitais. Um servidor público continuará trabalhando, em muitos mais processos que serão automatizados.

Não basta saber quais empregos a tecnologia vai eliminar. Precisamos saber quais tarefas deixarão de ser realizadas por pessoas, quais novas tarefas surgirão e como prepararemos milhões de trabalhadores para essa transição.

A transformação do trabalho não acontecerá apenas nas grandes cidades ou nos escritórios. A agroindústria já é um dos setores mais impactados. Drones acompanhando plantações, sensores medindo umidade, temperatura e condições do solo. Sistemas inteligentes ajudando a decidir quando irrigar e onde utilizar determinados insumos. Máquinas cada vez mais autônomas realizando parte do plantio e da colheita. O resultado será uma agricultura mais precisa e produtiva.

Determinadas atividades manuais diminuirão e ao mesmo tempo, crescerá a necessidade de técnicos, operadores, especialistas em dados, manutenção de equipamentos, automação e gestão ambiental. A agroindústria será cada vez menos separada da tecnologia. O agricultor trabalhará também com dados.

E esse é um exemplo de algo acontecendo em praticamente todos os setores: a atividade permanece, mas a maneira de realizá-la muda profundamente.

A chamada Indústria 4.0 já está em andamento, e sua integração com Inteligência Artificial generativa e sistemas cada vez mais autônomos acelerará as mudanças. Fábricas terão mais sensores e máquinas estarão conectadas. Sistemas acompanhando a produção em tempo real e a manutenção cada vez mais preditiva.  Gêmeos digitais permitirão testar alterações antes de realizá-las no mundo físico.

A IA vai ajudar a planejar produção, estoques e logística, reduzindo custos e desperdícios e reduzindo determinadas necessidades de trabalho repetitivo. A fábrica continuará precisando de pessoas, sendo que, uma parcela  dessas pessoas terá que operar, supervisionar, programar, reparar e melhorar sistemas complexos.

Crescerá a demanda por engenheiros, técnicos especializados, profissionais de automação, cientistas de dados, especialistas em cibersegurança e manutenção avançada.

Aqui existe um ponto fundamental. Não podemos aceitar como inevitável que o aumento da produtividade signifique simplesmente desemprego. Se uma empresa consegue produzir mais com menos horas de trabalho humano, tem que existir diferentes maneiras de distribuir esse ganho. Redução de jornadas, aumento de salários, novos produtos e serviços. Poder investir em novas atividades e requalificar trabalhadores.

O ODS 12 representa uma das mudanças mais profundas que teremos que fazer. Nossa economia foi construída, em grande medida, sobre a ideia de crescimento contínuo do consumo. Produzir, vender, comprar e descartar.

A Economia Circular propõe outra lógica. Um produto deve ser pensado desde o início para durar mais. Deve ser possível reparar, atualizar, reutilizar componentes e recuperar materiais. Reciclar.

Isso vai criar novas oportunidades econômicas. Empresas de manutenção ganharão importância. O mercado de produtos usados pode crescer e sistemas de aluguel e compartilhamento serão ampliados. Novos serviços surgirão para recuperar equipamentos e materiais.

Como manter os produtos e materiais circulando durante mais tempo na economia?

Isso também significa novos empregos. Técnicos de reparo, especialistas em logística reversa e reciclagem. Designers de produtos circulares. Empresas de recuperação de materiais e plataformas de compartilhamento. A economia circular será uma questão ambiental, mas também uma enorme oportunidade industrial e empresarial.

O comércio também será transformado. A compra digital continuará crescendo com a IA ajudando consumidores a encontrar produtos. Sistemas automatizados organizarão estoques e armazéns terão mais robôs.

Isso significa que muitas lojas serão transformadas. Algumas funções de caixa e atendimento repetitivo vão diminuir e ao mesmo tempo, vão crescer atividades relacionadas à experiência do cliente, manutenção, personalização e serviços.

O comércio de rua e os pequenos negócios continuarão tendo um papel importante nas cidades. Porque as pessoas não saem de casa apenas para comprar. Elas saem também para encontrar pessoas, para comer, passear e viver experiências. Não acredito no desaparecimento do comércio físico, mas acredito na sua transformação.

Os serviços públicos serão cada vez mais digitais. A Inteligência Artificial vai ajudar a responder dúvidas, analisar documentos, organizar processos e identificar padrões. Cidadãos vão resolver mais questões sem precisar enfrentar filas. Dados poderão ajudar governos a compreender melhor os problemas urbanos. Sistemas inteligentes vão identificar desperdícios, planejar manutenção, organizar transporte. Acompanhar o consumo de água e energia.

Um sistema público inteiramente digital pode excluir idosos, pessoas com baixa escolaridade ou cidadãos sem acesso adequado à internet. Por isso, uma tecnologia pública tem que ser eficiente, mas também humana. A IA será uma ferramenta e o cidadão continuará sendo o objetivo.

A transformação do trabalho, do comércio e da indústria também mudará os transportes. Veículos elétricos se tornarão mais presentes e sistemas inteligentes ajudarão a organizar o trânsito. A logística será cada vez mais automatizada. Rotas serão calculadas com maior eficiência e veículos poderão operar com níveis crescentes de autonomia, reduzindo desperdícios de combustível, tempo e recursos.

A grande transformação será pensar o transporte como um sistema. Se mais pessoas trabalharem remotamente ou de maneira híbrida, os deslocamentos mudarão. Se o comércio digital crescer, aumentará a importância da logística de última milha. Se os produtos forem mais compartilhados e reutilizados, crescerá a logística reversa.

Não transportaremos apenas produtos novos para consumidores, mas também produtos usados, materiais recuperados e componentes que retornarão para novas utilizações. A logística será cada vez mais importante para a economia circular.

Se a automação realmente aumentar a produtividade e reduzir a necessidade de trabalho humano em determinadas atividades, teremos uma sociedade com uma relação diferente com o tempo. Isso pode será extraordinário, desde que não aumente as desigualdades.

Se apenas uma pequena parcela da população receber os benefícios da produtividade tecnológica, poderemos ter mais riqueza concentrada e mais pessoas sem acesso ao mercado de trabalho tradicional. Mas, se conseguirmos distribuir melhor esses ganhos, poderemos caminhar para jornadas menores e mais tempo disponível. Aqui entram áreas que muitas vezes são tratadas como secundárias na economia, e que ganharão enorme importância. Cultura. Arte. Esporte. Turismo. Educação. Lazer. Relacionamentos. Entretenimento.

Uma sociedade com mais tempo livre precisará de espaços, serviços e oportunidades para viver bem esse tempo. Isso criará novos empregos. Não necessariamente empregos iguais aos que conhecemos hoje, mas novas atividades econômicas.  Uma pessoa poderá trabalhar menos horas em uma atividade automatizada e dedicar parte do seu tempo a outra atividade criativa, educacional ou empreendedora.

Em uma economia cada vez mais automatizada, aquilo que é exclusivamente humano ganhará valor. Música ou teatro ao vivo. Uma experiência turística, um jogo esportivo. uma obra de arte. Conversas, viagens. Nada disso será eliminado pela Inteligência Artificial.

A tecnologia será utilizada para criar novas formas de arte e entretenimento. Mas a necessidade humana de experimentar, emocionar-se e conviver permanecerá. Cultura, artes, turismo e lazer terão um papel econômico cada vez mais importante.

O turismo, continuará sendo uma das maiores economias baseadas em experiências. A IA ajudará a planejar viagens. A realidade aumentada (RA) e a realidade virtual (RV) enriquecerão visitas. (Conheça como nosso projeto ARANDULAND, pode tratar isso com games, Ead e imersões).  Mas milhões de pessoas continuarão querendo conhecer o mundo real. A tecnologia pode aumentar o desejo de viajar e não substituí-lo.

O envelhecimento da população também vai mudar a relação entre economia e trabalho. Muitas pessoas viverão mais e permanecerão ativas por mais tempo.

Isso não significa que trabalharão da mesma maneira aos 70 anos que trabalhavam aos 40. Crescerão atividades de consultoria e mentoria. Projetos temporários, parciais, empreendedorismo e atividades remotas.  Uma sociedade mais longeva terá que aprender a utilizar melhor a experiência acumulada pelas pessoas. Um profissional aposentado pode transmitir conhecimento, ajudar jovens empreendedores e participar de projetos.

Ao mesmo tempo, continuar aprendendo. Mais uma vez, voltamos ao conceito de Lifelong Learning. Em uma economia tecnológica, a educação não terminará aos 20 ou 25 anos. A atualização será permanente.

Se máquinas produzem mais, se algoritmos tomam decisões, se robôs realizam tarefas e se a Inteligência Artificial responde perguntas, o que permanece? Permanece a necessidade de alimentação, moradia, saúde, educação, segurança e mobilidade.

Permanece a necessidade humana de conviver. De criar, aprender, amar. De viajar e se divertir. A tecnologia mudará profundamente a maneira como produzimos e trabalhamos, mantendo as necessidades humanas.

A economia continuará existindo para atender pessoas. Esse ponto parece óbvio. Mas, em determinados momentos, esquecemos disso. Não devemos organizar as pessoas para servir à economia. Devemos organizar a economia para melhorar a vida das pessoas.

Quando falamos em Inteligência Artificial, robótica e automação, existe uma tendência de imaginar que a tecnologia determinará o futuro. Não determinará.

Nós vamos decidir como usar. Podemos utilizar a IA para aumentar a produtividade e concentrar ainda mais a riqueza. Ou podemos utilizá-la para reduzir desperdícios, melhorar serviços, diminuir jornadas e ampliar oportunidades. Podemos utilizar a automação para simplesmente eliminar empregos ou preparar trabalhadores para novas atividades. Podemos continuar produzindo produtos descartáveis ou construir uma economia circular. A grande discussão não será tecnológica. Será econômica, social e política.

Nos próximos cinco anos, veremos uma aceleração da automação em praticamente todos os setores. A agroindústria mais conectada, o comércio mais digital e os serviços mais automatizados. Os governos utilizarão mais dados. Os transportes serão mais conectados.

A Economia Circular deixará de ser apenas um discurso ambiental e se tornará uma necessidade econômica. Ao mesmo tempo, milhões de trabalhadores enfrentarão mudanças em suas atividades.

A grande responsabilidade será impedir que a velocidade da tecnologia seja maior do que a capacidade das pessoas de se adaptar. Precisaremos de educação permanente. Programas de requalificação e novas políticas públicas. Empresas comprometidas com a transição de seus trabalhadores.  E uma discussão séria sobre como distribuir os ganhos da produtividade.

O ODS 8, o ODS 9 e o ODS 12 estão profundamente ligados porque não será possível falar em trabalho decente sem inovação, nem em inovação sustentável sem repensar a forma como produzimos e consumimos.

Vejo um futuro com menos necessidade de determinadas tarefas humanas e maior necessidade de novas competências e novas atividades.

Isso pode ser uma excelente notícia, somente se conseguirmos transformar produtividade em qualidade de vida. Se produzirmos mais com menos recursos, teremos uma oportunidade histórica de reduzir desperdícios. Se a Economia Circular avançar, poderemos gerar riqueza utilizando melhor aquilo que já extraímos do planeta.

Como utilizaremos essa nova capacidade de produção para construir uma sociedade mais próspera, sustentável, justa e interessante para viver?

O verdadeiro sucesso da inovação não será medido apenas pelo número de robôs, algoritmos ou fábricas inteligentes que conseguirmos criar. Será medido pela resposta a uma pergunta muito mais simples: com toda essa tecnologia, a vida das pessoas ficou realmente melhor?

OBS1: Imagem feita com GEMINI

OBS2: Texto feito por mim a partir de lista de tópicos dos ODS e metas feito pelo chatgpt e casados com minha experiencia em Tecnologia, gestão, EaD e Sustentabilidade

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*Paulo Barreira Milet é um LifeLong Learner, Consultor e empresário nas áreas de Gestão e EaD, founder de Aranduland, Diretor da RIOSOFT e Presidente do Cons. de Educação do Coalizão Rio.

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